A distância que durante décadas separou Brasil e Estados
Unidos no comércio mundial do agronegócio diminuiu. Em 2025, os
norte-americanos exportaram o equivalente a cerca de R$ 883 bilhões em produtos
agrícolas, enquanto as vendas brasileiras chegaram a aproximadamente R$ 871
bilhões. Uma diferença de apenas 1,4% entre dois países que começaram este
século em posições muito distantes.
Enquanto o Brasil ampliou produção, produtividade e presença
em novos mercados, as exportações norte-americanas cresceram em ritmo bem menor
e passaram a enfrentar dificuldades em destinos estratégicos.
Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou R$ 871 bilhões,
considerando a conversão dos valores divulgados oficialmente. Foi o maior
resultado da série histórica e representou crescimento de 3% sobre o ano
anterior.
Os Estados Unidos encerraram o mesmo período com
aproximadamente R$ 883 bilhões em exportações agrícolas.
A diferença de cerca de R$ 12 bilhões é pequena diante do
tamanho do comércio dos dois países e mostra quanto a posição relativa mudou.
No início dos anos 2000, as exportações agrícolas americanas
eram mais de duas vezes e meia superiores às brasileiras. Em apenas cinco anos,
enquanto as vendas externas dos Estados Unidos cresceram aproximadamente 14%,
as brasileiras avançaram 68%.
O movimento continua em 2026.
Entre janeiro e julho, o agronegócio brasileiro exportou
aproximadamente R$ 533 bilhões, novo recorde para o período. Somente em julho
foram cerca de R$ 84 bilhões, também a maior marca já registrada para o mês.
Parte da aproximação pode ser explicada por uma diferença
estrutural entre os dois concorrentes.
Os Estados Unidos possuem uma fronteira agrícola
praticamente consolidada e enfrentam limitações para aumentar
significativamente sua área cultivada. Na pecuária bovina, o rebanho
norte-americano está próximo dos menores níveis das últimas sete décadas, situação
que reduziu a disponibilidade de animais e aumentou a necessidade de importação
de carne.
O Brasil ainda possui maior capacidade de crescimento da
produção, seja pela incorporação de áreas já abertas, seja principalmente pelo
aumento da produtividade e pela possibilidade de realizar duas ou até três
safras na mesma área durante o ano.
Essa vantagem aparece com clareza na soja.
Brasil e Estados Unidos estão entre os grandes responsáveis
pela oferta mundial da oleaginosa, mas o Brasil assumiu a liderança tanto na
produção quanto nas exportações e passou a ocupar uma parcela crescente do
mercado chinês.
A China é justamente onde a diferença entre os dois países
se tornou mais evidente.
Em 2025, os chineses compraram aproximadamente R$ 285
bilhões em produtos do agronegócio brasileiro. O país asiático respondeu
sozinho por 32,7% de tudo o que o setor exportou.
No comércio agrícola norte-americano ocorreu o movimento
contrário.
A China, que durante anos esteve entre os principais
compradores dos Estados Unidos, caiu para a sexta posição entre os destinos do
agro americano em 2025. As vendas recuaram 66% em apenas um ano, para
aproximadamente R$ 43 bilhões.
O próprio USDA associa essa retração às tarifas recíprocas e
à redução das compras chinesas de soja norte-americana.
A disputa comercial entre Washington e Pequim acelerou uma
mudança que já vinha ocorrendo por razões produtivas. Diante das tarifas
impostas aos produtos americanos, importadores chineses aumentaram a procura
por fornecedores alternativos, e o Brasil estava em posição privilegiada para
atender essa demanda.
O efeito ultrapassou a soja.
O Brasil ampliou participação internacional em carnes,
algodão, milho e outros produtos agropecuários e passou a disputar mercados que
historicamente tinham forte presença dos Estados Unidos.
Na carne bovina, a inversão é particularmente significativa.
O Brasil consolidou-se como maior exportador mundial, enquanto os Estados
Unidos, pressionados pela redução de seu rebanho, aumentaram as importações
para abastecer o próprio mercado.
Essa situação levou recentemente o governo norte-americano a
ampliar em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que poderá
entrar no país dentro da cota com tarifa reduzida até o fim deste ano, criando
uma oportunidade adicional para fornecedores como o Brasil.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos atingiram também
produtos brasileiros e criaram dificuldades para cadeias que dependem mais
diretamente daquele mercado. Café, carnes, suco de laranja e determinados
produtos industrializados estão entre os segmentos mais expostos às decisões de
Washington.
O efeito sobre o conjunto do agronegócio brasileiro,
entretanto, é limitado pela diversificação dos destinos.
Em 2025, os Estados Unidos compraram aproximadamente R$ 59
bilhões em produtos do agro brasileiro, equivalentes a 6,7% das exportações do
setor. A China comprou quase cinco vezes esse valor.
Essa diferença ajuda a explicar por que medidas comerciais
americanas podem provocar impactos severos em determinadas cadeias sem
necessariamente interromper o crescimento das exportações do agronegócio como
um todo.
Também mostra por que a abertura de mercados passou a ter
peso estratégico para o Brasil. Quanto maior o número de compradores
disponíveis para carnes, grãos, fibras, café, frutas e produtos processados,
menor a dependência de decisões comerciais tomadas por um único país.
Para o produtor rural, a aproximação dos Estados Unidos no
ranking mundial não representa apenas uma disputa estatística. Mercados
adicionais significam mais alternativas para escoar a produção e podem aumentar
a concorrência entre compradores, especialmente nas cadeias em que o Brasil já
possui grande excedente exportável.
Há, porém, um risco nessa trajetória.
A crescente concentração das vendas brasileiras na China
aumenta a exposição às decisões do país asiático. Quase um terço das receitas
do agro brasileiro no exterior depende atualmente daquele mercado.
Por isso, o próximo passo da expansão
brasileira passa não apenas por vender mais, mas por diversificar
compradores e aumentar o valor agregado dos produtos exportados.
A distância para os Estados Unidos, de qualquer forma, nunca
foi tão pequena. Depois de décadas perseguindo o maior exportador agrícola do
mundo, o Brasil chega à segunda metade de 2026 em condições de disputar uma
posição que, no início deste século, parecia muito distante.
Fonte: Assessoria










